Trânsito mata - Aracy P. S. Balbani
Historiadores afirmam que as bebidas alcoólicas são apreciadas pelo ser humano há mais de 6.000 anos. O champanha, por exemplo, foi criado em um mosteiro francês, e conta-se que o primeiro religioso a saboreá-lo descreveu a sensação de "beber estrelas". É justamente esse prazer que milhões de pessoas em todo o mundo esperam sentir ao consumir vinhos, cervejas e bebidas destiladas - uísque, cachaça e licores.Os hospitais das grandes cidades já registram menor número de vítimas dos acidentes automobilísticos desde a implantação da "lei seca" no trânsito brasileiro. Entretanto a violência no trânsito continua crescido assustadora. No município de São Paulo, o risco de morrer em acidente de trânsito já é igual ao de um homicídio.
Os dados disponíveis no Registro Nacional de Acidentes e Estatísticas de Trânsito (RENAEST) referem-se a 2006, ano em que houve 404.385 acidentes com vítimas não fatais no Brasil. No Estado de São Paulo ocorreram 147.432 acidentes dessa natureza, nos quais as vítimas foram majoritariamente homens (70%), jovens de 18 a 29 anos (43%) e pessoas de 30 a 59 anos (35%). Dentre os acidentados nas estradas e ruas paulistas houve 40 mil passageiros de veículos, 38.000 motociclistas, 37.000 condutores e quase 20.000 pedestres.
Naquele ano aconteceram também 19.752 acidentes com vítimas fatais em todo o País e 5.100 no nosso Estado. Foram registrados 4,4 acidentes com vítima fatal para cada 10.000 veículos automotores em circulação no território nacional. O Estado que teve o menor índice de acidentes com morte em relação à frota foi Santa Catarina (0,2 acidentes/10.000 veículos) e o mais violento foi o Maranhão (21,5 acidentes/10.000 veículos). Em São Paulo a cifra foi de 3,4 acidentes/10.000 veículos.
Esses números são apenas a ponta do iceberg. Eles não incluem os gastos gerados pelo socorro às vítimas, cirurgias e internações hospitalares, nem auxílio previdenciário durante o período de afastamento do trabalho. Um levantamento publicado em 2006 estimou que os acidentes de trânsito na Grande São Paulo custam, em média, R$ 1,4 bilhão por ano, dinheiro que bastaria para construir 1.600 creches.
A cada acidente é deslocada uma viatura ou decola o helicóptero do Resgate do Corpo de Bombeiros, mobilizando pessoal e recursos financeiros do governo. Praticamente todas as vítimas são levadas para a emergência dos hospitais públicos, gerando gastos também para o SUS. Casos de traumatismo craniano e lesão da medula espinhal costumam requerer cirurgias complexas e longos períodos de internação em UTI. Quando o indivíduo fica permanentemente inválido, torna-se dependente dos benefícios pagos pelo INSS. Em resumo, toda a população paga caro pelo acidente.
Para reverter esse quadro será necessário um trabalho árduo em várias frentes: combate às máfias que vendem carteira nacional de habilitação (CNH), fiscalização mais rigorosa pelos agentes de trânsito, melhoria das condições das rodovias e, principalmente, educação dos pedestres, ciclistas e condutores de veículos para respeitar a legislação e a sinalização de trânsito.
Ainda ocorrem "rachas" de adolescentes sem CNH que se exibem pelas ruas das cidades, muitas vezes sem cinto de segurança ou capacete. É comum ciclistas avançarem o sinal vermelho, como se a bicicleta não fosse um veículo e os pedestres que atravessam na faixa fossem pinos de boliche a serem derrubados. Aumentaram os casos de motoristas que trafegam na contramão de vias expressas e rodovias de grande movimento, colocando a própria vida e a de terceiros em risco. As poses com gestos obscenos ou as calças arriadas diante dos radares fotográficos também já se tornaram parte do folclore brasileiro.
Diante de tanta mediocridade, talvez o momento seja oportuno para discutir propostas de mudanças na legislação. A Constituição Federal assegura que saúde é direito de todos e dever do Estado. Porém, assim como nos campeonatos de Fórmula 1 e motovelocidade, os indivíduos que procuram a adrenalina das atividades radicais deveriam se submeter a competições regulamentadas. Elas seriam realizadas somente em autódromos dotados de equipamentos de segurança e resgate particulares. Os participantes assinariam um termo de responsabilidade, comprometendo-se a fazer seguro-saúde e usar apenas recursos médicos e hospitalares privados em caso de acidente, isentando o restante da população de quaisquer despesas.
Chega de pagarmos o pato por quem não tem respeito à coletividade nem à própria vida.
Aracy P. S. Balbani é médica otorrinolaringologista. CRM SP 81.725.
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